Mente Confiante

“Dádiva. Presente recebido… de Deus!

Sim, talvez seja…

O dom do reverso. De enxergar a vida às avessas…

Cultivamos o dom de uma criatividade ilimitada, que borbulha em nossa mente de tal maneira incontrolável que atravessamos a vida acreditando que em algum momento seremos reconhecidos…

O dom de nos atermos à beleza do vermelho vivo do sangue que brota e não à dor que sentimos ao nos atirarmos pela enésima de vez de abismos e precipícios…

O dom de caminharmos sobre os escombros de nossas próprias vidas; impávidos; indiferentes; incólumes; e absolutamente prontos para a próxima queda; tão certos estamos de nossos infinitos reerguimentos.

O dom de nossa multiplicidade. Multiplicidade de empregos; de amores; de recomeços; de objetivos; de fracassos; de tentativas…

O dom da amnésia. Não, não são essas pequenas e risíveis falhas de memória. O dom da amnésia consiste em esquecer as dores passadas; as derrotas passadas; os aprendizados passados e encarar cada dia como algo absolutamente novo e desconhecido…

A alma aventureira também é um dom. Gostamos de aventurarmo-nos. Esportes radicais são para os fracos. Aventuramo-nos com nossa própria vida; nosso presente, nosso futuro. Saltamos da modorra de uma embarcação segura para as delícias de corredeiras incontroláveis. Ah a adrenalina de uma vida inteira em risco…

O dom da visão de raio x. Ah coitados… Onde eles enxergam a dor e a destruição, nosso dom nos mostra o renascimento, o inusitado, o indomável; o inconquistável…

Cultivamos nossos defeitos com a dedicação e a disciplina dos obcecados mas vivemos, na verdade, de nossas superações.

Nosso dom não é a criatividade, mas de sobreviver à ela. De não permitir que ela nos afogue em imagens incontroláveis. Nossa memória ruim é uma dádiva que nos permite esquecer o que sofremos, dando à nossa alma a força dos que desconhecem o perigo e o sofrimento. Nosso dom está em rirmos de nós mesmos, de discutirmos abertamente nossa doença usando imagens de desenhos animados, filmes, músicas e toda a sorte de infantilidades que existem no mundo.

A vida é leve pra quem enxerga às avessas. Não é o objetivo, é o caminho. Não são as escolhas que importam, mas a possibilidade do desconhecido. Não é a dor de um corpo que cai no solo, mas a delícia do vento nos cabelos durante a queda.

Isso é dom. Dádiva. Presente de Deus.

Aos ‘trouxas’ resta chorar as dores de uma mente vazia, linear e sem graça…”

por Alexandre Schubert

Valéria Modesto

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